As pessoas em geral tendem a agrupar as doenças sexualmente transmissíveis numa única categoria, caracterizando-as como doenças que afetam os órgãos genitais. Porém, para além do facto das DST poderem apresentar sintomas noutras partes do corpo, o tipo de organismo responsável pela infeção também pode ser diferente. Nalguns casos são causadas por bactérias, noutras pela estirpe de um vírus, por fungos ou por parasitas. 

Como pode suspeitar, o tratamento das DST pode variar de acordo com a causa, tal como varia noutro tipo de doenças. Diferentes tipos de infeção respondem a diferentes tipos de tratamento e apesar de algumas poderem ser curadas, outras não podem e têm de ser controladas. 

Por isso, quais as diferenças entres estas subcategorias de doenças sexuais e quais os medicamentos disponíveis para estas?

Bacterianas

  • Clamídia
  • Gonorreia
  • Sífilis
  • Vaginose Bacteriana

Virais

  • Herpes
  • Verrugas Genitais
  • VIH
  • Hepatite

Parasíticas

  • Tricomoníase
  • Piolhos púbicos
  • Sarna

Fúngicas

  • Candidíase

Bacterianas

Infeções deste tipo incluem sífilis, clamídia e gonorreia. Nestes casos, uma bactéria infeta o corpo e dissemina-se, replicando o seu próprio DNA. 

Assim que estas infeções se disseminam, os sintomas começam a desenvolver-se, podendo incluir corrimento e dor urinária. Outros sintomas podem variar dependendo do género da pessoa afetada. Porém, é comum a presença de uma infeção bacteriana sem sintomas. 

Se deixada por tratar, é possível que se desenvolvam complicações, particularmente no caso da sífilis.

Porém, as DST bacterianas são tratáveis

O tratamento consiste geralmente numa dose única ou num pequeno ciclo de antibióticos. Estes medicamentos impedem o crescimento das bactérias responsáveis pela infeção. Assim que a bactéria é enfraquecida, o sistema imunitário consegue combater o que resta da infeção. Os sintomas desaparecem de seguida. 

Dependendo do tipo de antibiótico, que pode ser administrado por comprimidos orais, injeção ou uma combinação de ambos, estes medicamentos atuam de forma diferente.

Clamídia

A clamídia é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns, com centenas de pessoas diagnosticadas todos os anos. Este tipo de infeção é normalmente tratada com Azitromicina, um antibiótico do tipo macrólido que ataca a bactéria chlamydia trachomatis. Atua ao impedir a síntese de proteínas. Esta ação consiste na produção de proteínas pelas bactérias, permitindo replicar as suas próprias células e multiplicar-se.

Gonorreia

O tratamento recomendado para a gonorreia alterou-se várias vezes nos últimos 30 anos. 

A primeira linha de tratamento atualmente disponível é a Azitromicina (administrada em comprimidos) e a Ceftriaxona (administrada como injeção). Estes tratamentos antibióticos atuam de forma semelhante ao inibirem o crescimento da bactéria Neisseria gonorrhoeae

A Ceftriaxona é um tipo de medicamento que pertence à classe das cefalosporinas, que afeta as membranas das células bacterianas, enfraquecendo-as. Desta forma, aumenta a sua suscetibilidade ao sistema imunitário. 

Nos anos 70, as estirpes de gonorreia resistentes a antibióticos começaram a aparecer nos Estados Unidos e tornaram-se mais comuns a partir desta altura. É por este motivo que uma combinação de medicamentos é frequentemente usada, de forma a eliminar o risco da infeção persistir depois do tratamento.

Sífilis

O último estádio da sífilis pode colocar em risco a vida e requer sempre internamento hospitalar. Porém, quando a infeção está numa fase inicial, podem ser prescritos antibióticos. 

Atualmente, o tratamento de primeira linha é o benzatine benzylpenicilina, administrado por injeção. O medicamento atua ao impedir a síntese de proteínas, afetando a multiplicação do Treponema pallidum e tornando-o mais suscetível às defesas do corpo.   

A doença é muito sensível à penicilina, mas também se tornaram conhecidas estirpes resistentes a macrólidos. Em 2009, um estudo desenvolvido na China, relatou o aparecimento da condição neste país.

Vaginose Bacteriana

A vaginose bacteriana não é estritamente categorizada como uma DST, apesar de ser frequentemente confundida como uma. Esta pode desenvolver-se mesmo que não tenha ocorrido contacto sexual. A investigação afirma que é importante que os parceiros de mulheres infetadas façam também o teste. 

Contudo, tratar a infeção continua a ser importante. O medicamento recomendado na maioria dos casos é o metronidazol, que também se comercializa com o nome Flagyl. A sua função consiste em atuar nas células da bactéria Gardnerella vaginalis e interferir com a sua estrutura de DNA. Mais uma vez, isto enfraquece as bactérias e permite ao corpo combater a infeção.

Virais

Como diferem as DST virais das infeções bacterianas?

Nem sempre podem ser tratadas com medicamentos.

Nestes casos, os produtos antivirais são usados para conduzir a infeção a um estado de dormência e limitar o risco de reativação. Os antibióticos geralmente não têm efeito no tratamento dos vírus. 

Os sintomas causados pelos vírus podem variar e podem não afetar apenas os órgãos sexuais. O tipo de tratamento requerido para a doença depende da sua natureza e gravidade. Em certos casos pode ser necessária hospitalização, noutros podem ser prescritos medicamentos ou a doença pode ser naturalmente eliminada pelo sistema imunitário.

Herpes

Esta é uma das DST de origem viral mais comuns em Portugal, sendo diagnosticados milhares de casos todos os anos. 

Existem duas estirpes do vírus do herpes o HSV-1 e o HSV-2. O primeiro é mais frequentemente associado a vesículas orais ou herpes labial, enquanto o segundo é a causa mais frequente de herpes genital. Os medicamentos para este tipo de infeções incluem o aciclovir, o famciclovir e o valaciclovir. 

Apesar da ação destes tratamentos não ser a mesma que a dos antibióticos, o seu modo de atuação é semelhante. O vírus do herpes requer a presença de uma enzima, a DNA polimerase, de forma a gerar cópias das suas próprias células e a disseminar-se. O Aciclovir e variações semelhantes atuam ao penetrar nestas células e a limitar a atividade desta enzima, para que o vírus pare de crescer. Ao contrário dos antibióticos, isto não faz com que o corpo se livre do vírus, porém este será colocado no estado de dormência. 

O medicamento é aplicado novamente se o vírus for reativado. Se utilizado numa fase inicial, antes dos sintomas se desenvolverem, os tratamentos acima podem ser muito úteis a prevenir um novo surto.

Verrugas genitais

A estirpe viral responsável pelas verrugas genitais é o vírus do papiloma humano ou HPV. Existem várias estirpes que podem causar diferentes sintomas. As verrugas genitais são frequentemente causadas pelas estirpes 6 e 11. Não está atualmente disponível uma cura, porém, existem medicamentos que podem tratar os seus efeitos, incluindo as verrugas genitais. Mais uma vez, estes são prescritos na forma de medicamentos antivirais.

O Condyline e o Wartec (Warticon) são soluções tópicas que contêm podofilotoxina. Esta substância entra nas células das verrugas e interfere com a função da topoisomerase II, uma enzima que estas células usam para manter a sua estrutura de DNA. Como resultado, as células começam a diminuir o seu número e são substituídas por células de pele saudáveis, levando ao desaparecimento dos sintomas.

Outra opção para as verrugas genitais é o imiquimod, que atua de forma ligeiramente diferente. Em vez de atacar as células das verrugas, este aumenta a função do sistema imunitário, encorajando-o a libertar mais químicos conhecidos como citoquinas, que combatem as células das verrugas. 

Estes tratamentos foram avaliados num estudo desenvolvido em 2011 e têm uma taxa de eficácia muito semelhante na irradicação das verrugas genitais: 72% do caso da podofilotoxina e 75% no caso do imiquimod. 

Para casos mais severos de verrugas genitais, com os aglomerados que têm uma superfície com mais de 4cm, pode ser necessária a remoção cirúrgica. Isto pode incluir laser ou eletrocirurgia, excisão ou crioterapia.

VIH

O vírus da imunodeficiência humana, também conhecido como VIH ou HIV, é considerado uma das DST mais mortais, devido à sua capacidade de desenvolver SIDA, uma condição que torna o sistema imunitário ineficaz. Alguns tratamentos desenvolveram-se assim que o vírus se tornou conhecido nos anos 80 e apesar deste não ter cura, os medicamentos antirretrovirais conseguem manter a condição controlada e impedir o seu progresso.

Os medicamentos antirretrovirais são frequentemente usados em conjunto, uma vez que o VIH tem a capacidade de desenvolver resistência a um só tipo. Na maioria dos casos, estes têm de ser tomados todos os dias, para o resto da vida.

Os inibidores da protease bloqueiam a função da protease, uma enzima, que as células do vírus utilizam na sua replicação e disseminação. A Nevirapina, um análogo não nucleosídeo inibidor da transcriptase inversa, atua de forma semelhante, porém tem como alvo outra enzima que o vírus precisa para crescer.

Para pessoas que tiveram sexo desprotegido com alguém infetado, mas que ainda não desenvolveram a doença, está disponível um programa de emergência para prevenir o VIH, chamado profilaxia pós-exposição. Este é administrado na forma de medicamentos antirretrovirais e deve ser tomado 72 horas após o contacto para que seja eficaz. Este contudo, não fornece garantias quanto à transmissão do VIH. Num estudo que incluiu 702 pacientes, 1% dos participantes que seguiu este tratamento para prevenir o HIV, desenvolveu a doença.

Hepatite

Este termo caracteriza a inflamação do fígado, que pode ocorrer por várias razões, muitas das quais nada têm a ver com o contacto sexual. Algumas estirpes da hepatite viral, contudo, podem ser transmitidas pelo contacto sexual. A hepatite B e C têm o potencial de causar falência hepática, porém o corpo lida com estas de forma diferente. 

É mais provável que as pessoas com hepatite B consigam combater a infeção por si em poucos meses. Outros podem desenvolver um caso mais crónico e precisar de tratamento antiviral durante um período prolongado para tratar os sintomas. É pouco provável que uma pessoa com hepatite C se consiga livrar da condição naturalmente, podendo ser necessário tratamento nalguns casos na forma de medicamentos antivirais. 

O Peginterferon alfa-2 é um exemplo deste tipo de medicamentos. Este é prescrito na forma de uma injeção, uma vez por dia, para impedir que o vírus se desenvolva, no caso da hepatite B. No caso da hepatite C, este é normalmente administrado duas vezes por semana, eliminando o vírus em 80% dos casos. O tratamento atua ao aumentar os efeitos do sistema imunitário, ajudando a combater as células do vírus.

Um médico pode optar por prescrever um tratamento combinado, que contém um comprimido oral, como a ribavirina para além da injeção, de forma a aumentar a probabilidade de parar a infeção. Esta é normalmente administrada duas vezes por dia. Tal como outros antivirais, impede a função de enzimas necessárias à replicação do vírus, tendo uma abordagem dupla ao impedir o desenvolvimento das células virais. 

Se as injeções forem insuficientes a tratar a hepatite B, o Tenofovir e o Entecavir são exemplos de comprimidos orais que o seu médico pode sugerir. Estes também são inibidores da DNA polimerase.

Parasítica

De forma simples, um parasita é um organismo que se alimenta de nutrientes do seu hospedeiro. No caso das DST, estes podem ter manifestações no interior ou no exterior do corpo e resultar em vários sintomas.

O tratamento tem um duração curta e é muito eficaz a eliminar a infeção.  

Para os parasitas internos, pode ser usado um antibiótico, enquanto que no caso de parasitas externos, um creme ou uma loção são normalmente suficientes para erradicar a infeção na maioria dos casos.

Tricomoníase

É um infeção protozoária, sendo causada por um parasita chamado Trichomonas vaginalis. Este pode ser encontrado no trato urinário e causa vaginite e uretrite nas mulheres e nos homens, respetivamente. É a DST mais comum deste tipo. 

Em termos dos seus sintomas e tratamento, a tricomoníase é muito semelhante a uma infeção bacteriana. Esta condição é tratada com o antibiótico metronidazol. Este interfere com a produção de ácido nucleico por parte do parasita, necessário para preservar a sua estrutura de DNA. Da mesma forma que ocorreria com uma infeção bacteriana, o medicamento permite ao sistema imunitário combater as células protozoárias.

Piolhos púbicos

Os piolhos púbicos têm normalmente uma aparência semelhante a pequenos caranguejos, estando presentes nos pelos púbicos dos indivíduos afetados e podendo causar comichão e inflamação. Estes são transmitidos por contacto íntimo como o sexo, mas também pela partilha de toalhas ou lençóis. 

Para tratar a condição, é normalmente sugerida uma loção insecticida ou champô. Após a administração inicial, é novamente aplicado após um período de três a sete dias.

Sarna

Esta infeção é causada pelo Sarcoptes scabiei, um pequeno parasita que se aloja e deposita ovos na pele. A sua presença leva a uma reação do sistema imunitário, pelo que é frequente o aparecimento de uma erupção cutânea na área afetada. Mais uma vez, o contacto físico através do sexo ou pela partilha dos itens listados acima, são os principais meios de transmissão da infeção. 

Os medicamentos para a infeção podem ser prescritos na forma de um creme tópico ou loção. Estes são aplicados duas vezes, com uma semana de intervalo entre doses.

Fúngica

Apesar de não serem consideradas uma DST por poderem ter várias causas, incluindo a utilização de antibióticos e contracetivos, algumas infeções fúngicas podem ser transmitidas pelo contacto sexual.

Candidíase

Esta é caracterizada pelo aumento de um tipo particular de fungo na vagina. A Candida albicans é um tipo de fungo normalmente inofensivo para o corpo, porém pode causar infeção quando em número elevado.

Para ajudar a manter os níveis fúngicos normais, os médicos prescrevem normalmente medicamentos antifúngicos. Tratamentos como o Diflucan e o Gyno-Daktarin atuam ao danificar as membranas celulares das células. Ao fazerem-no, criam buracos nas paredes celulares das células do fungo, fazendo com que os seus componentes extravasem, diminuindo o número destas células.

A importância dos testes e tratamento

Se existe uma lição importante a retirar da informação acima é que as DST se podem manifestar em várias formas, pelo que não existe um único tipo de tratamento indicado para todas. Algumas não são facilmente tratadas com antibióticos e podem requerer medidas a longo prazo. Por este motivo, bem como pelo risco de transmitir DST a outras pessoas, é importante praticar sexo seguro.

Página revista em:  07/03/2018