A viagem ao espaço apresenta muitos desafios ao corpo humano. O risco psicológico, social e físico potencial é muito grande. A experiência do astronauta Scott Kelly, que permaneceu um ano a orbitar 400 km sobre a superfície terrestre, é um exemplo disso.

Conversamos com Libby Jackson, Gerente de Exploração Humana na Agência Espacial do Reino Unido, e com o Professor Philip Stooke, do Centro de Ciência e Exploração Planetária da University of Western Ontario, juntamente com Daniel Atkinson, da Treated.com, para discutir as mudanças e flutuações que o corpo está sujeito e como um astronauta pode lidar melhor e lidar com este tipo de exposição.

O que acontece com o corpo no espaço?

A densidade muscular e óssea diminui

Na Terra, a gravidade dá densidade aos ossos para que eles possam sustentar o corpo adequadamente. No entanto, no espaço, onde não há gravidade, os nossos ossos podem perder densidade e se tornarem mais fracos.

Sabemos que nos voos espaciais longos (até o máximo de 400 dias até o momento), a gravidade zero tem efeitos - os músculos não trabalham muito se tornando fracos, inclusive o coração. Os ossos não precisam ser fortes e com isso perdem cálcio”, explica o professor Stooke.

A NASA estabeleceu que esta perda na densidade ocorre a uma taxa tão alta quanto 1% ao mês no espaço, ao contrário de 1% a 1,5% ao ano entre os idosos na Terra. Tais efeitos compartilham muitos paralelos com o processo de envelhecimento na Terra e, embora possam ser bastante severos, ajudam a aumentar a nossa compreensão do corpo à medida que envelhecemos.

"Os astronautas fornecem uma ferramenta de pesquisa muito útil para cientistas que estão a trabalhar para entender esses mecanismos, incluindo vários grupos de pesquisadores do Reino Unido", diz Libby.

Durante um período de cinco meses no espaço, um astronauta pode perder até 40% do músculo e 12% da massa óssea. Isto equivale a um jovem de 20 anos com a idade triplicada num período de três meses.

"Quando alguém perde uma quantidade significativa de densidade óssea, isto é chamado de osteoporose", comenta Dr. Daniel Atkinson, líder clínico da Treated.com.

"Alguém com esta condição tem um risco muito maior de sofrer fraturas e ruturas e, consequentemente, necessitar de cirurgia corretiva. A maioria das pessoas começa a perder gradativamente a densidade óssea a partir dos 35 anos, mas se nos astronautas este processo for acelerado, isto representa um risco significativo para a saúde a longo prazo, já que obviamente perderão mais prematuramente."

Para reduzir estes riscos, os astronautas devem completar um mínimo de duas horas de exercício físico todos os dias no espaço. Isto pode ser vital numa situação de emergência.

"[Os astronautas] se exercitam por 2 horas todos os dias para que, caso tenham que voltar para a Terra numa emergência, estariam fortes o suficiente para sair da espaço nave", observa Libby.

"Numa emergência, podem acabar em lugares muito isolados e precisam cuidar de si mesmos por um tempo".

Manter uma dieta saudável e equilibrada também é crucial para preservar a massa muscular e óssea.

"No espaço, a tripulação segue uma dieta saudável equilibrada, assim como nós. É particularmente importante manterem o sal em níveis baixos, pois, o excesso pode acelerar a perda óssea que sofrem”, enfatiza Libby.

Recuperação da densidade óssea na Terra

Considerando tal período no espaço, é possível recuperar totalmente a densidade muscular e óssea quando retornar à Terra?

Pode, mas leva pelo menos três ou quatro anos. Tal perda muscular e óssea no espaço é comparável à osteoporose na Terra. Aumento dos níveis de cálcio também é outro fator que talvez tenha de enfrentar, tornando-o mais propenso à pedras nos rins, e o funcionamento motor básico pode ser prejudicado ao retornar do espaço.

"Quando a tripulação voltar para a Terra, precisam se adaptar novamente à sensação de gravidade", aponta Libby.

"Se o astronauta estiver no espaço por alguns meses, pode levar alguns dias até que o sistema de equilíbrio seja reajustado e possam ficar de pé e andar normalmente."

Mesmo apesar de completar um programa de reabilitação, os astronautas podem nunca recuperar a sua massa óssea original.

Exercícios de sustentação de peso são essenciais para recuperar massa muscular e óssea, em conjunto com atividades como ioga, corrida e subir escadas.

"O exercício ajuda a mitigar os efeitos e estamos ainda aprender mais sobre como superar os problemas. Grande parte da pesquisa da Estação Espacial Internacional é direcionada a estas questões", diz o professor Stooke.

A exposição à radiação pode aumentar o risco de cancro

Estudos sobre os perigos colocados pela radiação no espaço forneceram evidências poderosas de que o cancro e outras condições debilitantes provavelmente se manifestarão se formos expostos a raios cósmicos galácticos ou a eventos de partículas solares. Este tipo de radiação pode viajar completamente sem obstáculos através de naves espaciais e pele humana, e pode tornar os astronautas consideravelmente suscetíveis à doença da radiação, danos ao sistema nervoso central e doenças graves. Também pode aumentar as chances de desenvolver cancro. Calculou-se que os astronautas estão expostos a um nível de radiação equivalente a algo entre 150 e 6.000 radiografias de tórax.

Existe alguma coisa que possamos fazer para combater os riscos da radiação no espaço?

Em viagens por períodos prolongados através do espaço, como a Marte, não há atualmente um plano de ação concreto em vigor. Pesquisadores da NASA e de outras organizações espaciais estão, no entanto, explorando as possibilidades da edição genética, terapia genética e formas de rastreamento para pessoas geneticamente melhor equipadas para sobreviver aos efeitos da radiação.

Pressões psicológicas podem ter consequências na saúde mental

As viagens espaciais conduziram a numerosos astronautas que experimentaram uma variedade de efeitos psicológicos. As alucinações são típicas e produziram algumas imagens visuais incomuns para os afetados. Durante uma missão em 2012 na Estação Espacial Internacional, o astronauta Jon Pettit falou de “flashes nos meus olhos, como fadas luminosas e dançantes”, que seriam particularmente vívidas no escuro pouco antes de dormir. Enquanto na Terra a maioria das partículas é absorvida pela atmosfera, no espaço, as células nervosas produzem este efeito descrito como uma “fada dançante”, que é causado pelos raios cósmicos.

Conflitos interpessoais podem ter consequências psicológicas significativas também. Extensas horas de trabalho, fadiga e brigas com o controlo da missão levaram a tripulação do Skylab 4, um programa dos EUA, desligar o rádio e ignorar a NASA por um dia. Este tipo de situação decorrente do confinamento, que geral um considerável desânimo na equipa, surgiu também em outros estudos.

A pesquisa também revelou um declínio no funcionamento cognitivo mais fundamental no espaço. Funcionamento básico, como prestar atenção, mudar de uma tarefa para outra, coordenação e resolução de problemas, todos parecem ser reduzidos, com um declínio na atividade física uma causa provável. A ausência de gravidade e o subsequente impacto no fluxo sanguíneo também podem desempenhar um papel significativo nisso. Embora a redução não seja grave, pode afetar a capacidade dos astronautas de lidar com emergências.

"É lógico que o fluxo sanguíneo restrito causado pela falta de gravidade do espaço pode ser um catalisador para estes efeitos", observa Atkinson.

O fluxo sanguíneo é essencial para movimentar oxigénio ao redor do corpo e para o cérebro; e sem oxigénio suficiente, a função cerebral normal pode ser afetada, subsequentemente impactando nas reações, na coordenação e na capacidade cognitiva.

O que podemos fazer diante dos fatores de risco psicológico no espaço?

Uma equipa de psicólogos criou um aplicativo em 2008 chamado Virtual Space Station para ajudar os astronautas a enfrentarem dificuldades como depressão e saudades de casa enquanto estão no espaço. O aplicativo é composto por vídeos de ex-astronautas a falar sobre os seus próprios problemas e a melhor forma de lidar com eles.

Os medicamentos psicoativos podem ajudar os astronautas do ponto de vista da saúde mental, e os tipos de comprimidos antiansiedade, como o diazepam, estão disponíveis para a tripulação a bordo. Medicação antipsicótica, como haloperidol, e remédios para dor e sono, como codeína, morfina e temazepam, também são fornecidos, juntamente com ISRSs, em missões mais recentes.

Mais estudos estão a ocorrer sobre bem-estar psicológico dos astronautas no espaço. A seleção de membros da tripulação a partir de um foco de questões psicossociais foi proposto, para que a solução de problemas esteja no centro de qualquer conflito interpessoal e não ser encoberto por ele. Isto é importante, pois, não há espaço externo a bordo para permitir que as tensões cresçam, qualquer conflito deve ser resolvido imediatamente. Ser capaz de ver a Terra e fotografá-la é essencial para a saúde mental positiva a bordo e para ajudar os astronautas a se sentirem menos isolados.

Há muitas considerações quando se trata do bem-estar mental dos astronautas no espaço, mas é importante enfatizar que eles geralmente estão bem equipados para lidar com os rigores psicológicos, e as suas necessidades são levadas muito a sério por suas organizações.

"A mente pode ser afetada pelo stresse e pelo isolamento, mas já temos muita informação sobre isso e, geralmente, os astronautas são pessoas e profissionais fortes, capazes de lidar com estas questões. Organizamos comunicações frequentes para que as pessoas não se sintam isoladas", explica o professor Stooke.

"Penso que as questões mentais são bem compreendidas e podem ser resolvidas com treino e boa comunicação."

Quando será seguro o suficiente para viajarmos para Marte?

Ao olhar para o futuro, é provável que seremos capazes de assegurar a passagem segura dos astronautas para Marte e de volta a qualquer momento em breve?

Devido ao orçamento e tecnologia necessários, qualquer missão iminente a Marte é improvável. Manter os astronautas saudáveis por longos períodos no espaço profundo continua a ser um enorme desafio.

"Os níveis de radiação no espaço profundo são muito maiores e representam um desafio para a saúde dos astronautas, que precisam ser protegidos da radiação", observa Libby.

Elon Musk, CEO da SpaceX, falou sobre o plano da sua empresa para uma primeira missão tripulada a Marte em 2024/2025, enquanto o Programa de Exploração de Marte da NASA ainda está a investigar como fazer uma missão segura, o que provavelmente continuará a ser feito durante a próxima década.

Uma compreensão detalhada do ambiente marciano é primordial em termos de saúde humana, desde os efeitos da radiação até as propriedades químicas do solo de Marte. Por enquanto, teremos de confiar nas descobertas robóticas do “2001 Mars Odyssey” e do “Mars Reconnaissance Orbiter”.

Acho que temos muito mais para aprender sobre o espaço antes de podermos ir a Marte. Engenharia (como aterrissar em Marte e voltar), e questões médicas (voos longos, riscos de radiação, efeitos de poeira de Marte na saúde) levarão tempo e dinheiro para serem resolvidos", comenta o Prof Stooke.

"Eu julgo que o financiamento para Marte ser explorado por pessoas não estará disponível por algumas décadas, então prefiro continuar a enviar robôs. Pessoalmente, gostaria de ver as pessoas na Lua e deixar Marte para um futuro muito posterior."