Desde o seu lançamento no mercado na década de 60, a pílula tornou-se o método contracetivo mais utilizado. Segundo um estudo da Sociedade Portuguesa de Ginecologia e Sociedade Portuguesa de Contraceção de 2015, cerca de 58% das mulheres em idade fértil usam a pílula como método contracetivo.

A utilização da pílula combinada, normalmente tomada em ciclos de 3 semanas, seguidos de uma semana de pausa, foi compreendida por muitos como a forma mais eficaz de tomar este contracetivo.

Contudo, recentemente, alguns especialistas começaram a questionar este tipo de utilização, afirmando que tomar a pílula de forma seguida, sem fazer a pausa de 7 dias, torna este tipo de contraceção mais conveniente e eficaz.

Neste artigo iremos explorar esta afirmação e discutir:

  • As indicações atuais de utilização da pílula combinada
  • Se a pausa de 7 dias ainda faz sentido
  • Quais os potenciais benefícios de não fazer a pausa
  • E se deve ou não adotar o método contínuo

Indicações atuais de utilização da pílula combinada

A maioria das utilizadoras da pílula combinada é aconselhada a tomar um comprimido por dia, durante 21 dias e a parar a toma durante sete dias antes de iniciar uma nova embalagem. Este método é por vezes referido como 21/7.

Durante a pausa livre de pílula muitas mulheres sofrem de uma hemorragia semelhante à menstruação, conhecida como hemorragia de privação. Se a pílula for tomada corretamente, a proteção contracetiva é mantida durante os sete dias livres de pílula.

A utilização correta da pílula contracetiva faz desta um método eficaz de contraceção, com uma taxa de eficácia teórica de 99,7% e uma taxa de eficácia para uso real de 92%.

A utilização real tem em consideração alguns aspetos do quotidiano, como a falha na toma de um ou mais comprimidos ou não tomar a pílula à mesma hora todos os dias.

A pausa de 7 dias ainda faz sentido?

O método de utilização 21/7 foi aceite como uma boa prática desde que a pílula foi lançada no mercado na década de 60. Porém, recentemente tem havido alguma discussão sobre a melhor forma de tomar a pílula.

O Professor John Huillebaud, um especialista em planeamento familiar e saúde reprodutiva na Universidade de Londres, argumentou que a pausa de 7 dias está ultrapassada.

Este método, desenvolvido há 60 anos atrás, segundo o Professor John não teve como base científica otimizar os efeitos da pílula, mas sim tornar o seu uso mais prático, uma vez que uma pausa de 7 dias ao fim de 3 semanas é relativamente fácil de lembrar e de observar pelas mulheres.

Porém, uma das maiores desvantagens deste método é que no final de cada pausa, uma pequena parte da função ovulatória pode retomar.

Num estudo publicado em 1990, Guillebaud e os seus colegas sugeriram que estender o período de pausa de sete dias podia aumentar as hipóteses de ovulação em 23% na população estudada. O Professor Guillebaud afirma que a toma contínua da pílula reduz a probabilidade de isto acontecer.

Isto fez com que adaptasse a bula da pílula com instruções revistas sobre como tomar a pílula seguindo o método 365/365, a que chamou “tomar a pílula no século XXI”. De acordo com esta bula, a hemorragia que ocorre no período de pausa não tem qualquer benefício para as pacientes e pode ser evitada por completo.

É possível que algumas pacientes que adotem o método 365/365 sofram de hemorragia irregular (ou spotting), porém espera-se que esta diminua ao longo do tempo e que estas mulheres acabem por não sofrer hemorragia de todo.

Os autores da bula argumentam que uma pausa de 4 dias na toma da pílula pode ser aconselhada às pacientes que sofrem de hemorragia incómoda, não sendo necessárias medidas preventivas adicionais desde que uma utilização correta tenha sido feita nos últimos sete dias. Também afirmam que o método 365/365 faz com que as doses mais baixas sejam mais eficazes.

(É importante clarificar nesta fase que existem atualmente algumas pílulas combinadas que são classificadas como pílulas diárias ou contínuas, como a Qlaira. Este tipo de pílula é tomado todos os dias, porém, a embalagem contém comprimidos inativos. Por este motivo, se usar este tipo de pílula combinada, é importante seguir as instruções na ordem correta de forma a manter a proteção.)

Quais os benefícios de não ter um período de pausa?

Algumas mulheres preferem tomar a pílula de forma contínua por várias razões. O Professor Guillebaud sugere que omitir o período de pausa de sete dias aumenta a eficácia contracetiva da pílula.

Porém, tomar a pílula todos os dias sem período de pausa também significa que é mais fácil conseguir uma utilização ótima e não falhar a toma da pílula por erro.

Para além disto, a hemorragia menstrual ou a hemorragia de privação pode ser inconveniente para algumas mulheres e fazer com que sofram de sintomas desconfortáveis. As mulheres que fazem uma utilização 365/365 da pílula podem também sofrer uma redução dos sintomas pré-menstruais, com dores de cabeça e dores abdominais. As doses mais baixas podem também ser mais eficazes se usadas desta forma.

Posso adotar o método 365/365?

Não deve tomar uma decisão sobre a pílula só por si. A melhor pessoa para abordar este assunto é o seu médico de família ou ginecologista. Estes poderão discutir consigo os benefícios dos vários métodos com mais detalhe.

De forma resumida, deve continuar a tomar a pílula tal como indicado pelo seu médico ou enfermeira. O método 365/365 ainda não é uma forma de utilização oficial e apenas pode ser aplicado a pílulas não fásicas com 20mcg de estrogénio.

Alguns médicos podem estar confortáveis a fazer a prescrição deste método. Porém, a maioria dos médicos apenas aconselhará a utilização tradicional e oficial do método 21/7.

Se quer saber mais sobre se pode tomar a pílula sem a pausa de sete dias, consulte o seu médico ou faça uma consulta de planeamento familiar.